Wednesday

Dawnrider - Entrevista

1 – Fala-me um pouco da história dos Dawnrider desde a sua concepção até à data.
FJ – Em 2004 eu vim com a ideia de formar um projecto novo com o Libe (João Barrelas). Ambos tínhamos terminado as nossas funções nos Subcaos, mais uma vez a banda iria hibernar. Como necessitávamos de um line-up diferente dos Subcaos eu propus ao Conim, que fosse experimentar guitarra ritmo e ver como se entendia com o Libe. Por sua vez o Libe trouxe o Samuel dum projecto que tinham em conjunto. Ainda tinha os No-Counts a decorrer, lembrei-me logo de propor ao Victor o lugar na bateria para este tal projecto de Metal. Já no tempo dos No-Counts eu e o Vítor queríamos tocar Metal, no tempo dos Subcaos o Libe partilhava da mesma ambição comigo, então o passo óbvio seria formar uma banda de Metal. Depois de vários concertos e de um split Ep editado na Blood & Iron, Samuel sai e entra outro ex-No-Counts, o Carlos “Sven”. Como o Samuel saiu a meio das gravações e não podíamos perder mesmo mais tempo, no álbum, quem gravou o baixo foi o Conim. Espero que esta formação se mantenha por muito tempo, para além de serem grandes amigos, são músicos muito criativos com um enorme coração.

2 – Descreve os processos de composição e gravação deste disco de estreia “Alpha Chapter”.
FJ –
Os temas foram compostos essencialmente pelo Libe, mas temos também alguns pelo Samuel e pelo Conim. Os arranjos são feitos um pouco por todos na banda. As letras até agora têm sido feitas todas por mim. O modo como gravámos este álbum foi errante, houveram muitos problemas, as misturas eram para serem feitas em casa com um produtor mas os planos falharam, aconteceram uma data de imprevistos da parte do nosso antigo baixista e tivemos de continuar o trabalho no estúdio onde fizemos a captação, passados uma data de meses. O álbum foi feito aos bochechos e na fase final teve de ser apressado. Para um primeiro álbum acho que está bom, mas da próxima já temos um plano delineado onde vamos gravar os temas dois a dois em meses seguidos e depois sim, as misturas serão feitas de seguida.Assim é tudo feito em um terço do tempo, gastamos metade do dinheiro que gastámos e depois deste verão, temos o disco todo gravado e misturado. Desde que registámos a bateria até que o álbum estivesse masterizado, passou-se um ano. Muitos meses queimados esperando podermos gravar guitarras e baixo em casa e no fim não foi possível.

3 – Sobre que assuntos incidem as letras contidas neste disco?
FJ –
Variam um pouco, não há um conceito neste primeiro álbum. As letras são directas e fáceis de entender. Lidam muito com o conceito de liberdade, não numa perspectiva de reclamar por exemplo libertinagem, mas sim a liberdade do indivíduo cada vez mais condicionada de formas camufladas que o sistema usa para eliminar as nossas defesas. Os sistemas modernos já não usam a repressão policial, ditaduras militares ou coisas do género…preferem usar a economia para chegar aos seus objectivos.Por outro lado, falam de batalhas espirituais, letras pessoais de mágoa, dor e paixão e até uma que é um tributo a uma banda Portuguesa dos anos 70 que são os Beatniks.

4 – A capa do disco é uma fotografia da banda, mas esta foi tratada de modo a ter um ar de portada de disco dos 70s. Era esta a vossa intenção, suponho? Quem é que foi responsável pela capa?
FJ – A foto na capa, bem como a contracapa e a foto do interior são da autoria de um fotógrafo que descobri num fórum de Metal cá, muito talentoso por sinal, que é o José Ramos. Apaixonei-me pelo trabalho dele e contactei-o fazendo a proposta para trabalhar conosco neste álbum e que levaria a banda até alguns sítios de Sintra que ele fotografou para experimentar com a banda e assim foi. No disco apenas estão duas fotos da banda mas temos mais umas três diferentes de uma sessão de mais de 500 para introduzir como fotos promocionais para magazines, webzines, o que for necessário. Se olhando para a capa dá a imagem de recriar um ambiente “seventies”, então a missão foi cumprida.

5 – Quais são as vossas influências musicais, assim como outro tipo de influências?
FJ – São bandas de várias épocas e estilos mas que se encaixam bem umas nas outras, pelo menos para nós. Do final de 60’s e anos 70 somos influenciados por nomes de peso como os óbvios Sabbath e Pentagram, mas também por Bang, Sir Lord Baltimore, Dust, Buffalo, Judas Priest dos primeiros tempos, Captain Beyond, Blue Cheer, High Tide, etc. Dos 80’s retiramos influencias no Doom Metal, Crust original e Heavy Metal tradicional, como Trouble, Saint Vitus, Obsessed, Penance, Amebix, Antisect, Deviated Instinct, Angel Witch, Diamond Head, Witchfinder General, Mercyful Fate e Manilla Road. Outras influencias podem ser a Bíblia Sagrada, William Blake, o terrível sistema em que vivemos, a nova ordem mundial, o sonho hippie e a utopia libertária.

6 – O disco é lançado pela Raging Planet Records. Como é que surgiu esta colaboração? Porque é que a banda optou por esta editora em particular?
FJ – Eu já conheço o Daniel Makosch da Raging há algum tempo. Inclusive, cheguei a escrever sobre algum Metal na Rock Sound quando ele editava cá a versão Portuguesa da revista. Quando terminámos a gravação foi o primeiro a quem mostrei por ter boas relações com ele. Como ele quis editar o disco, eu nem mostrei a mais ninguém. Agrada-nos o facto de ser alguém que nós conhecemos a editar o disco. Embora a editora não tenha nenhuma banda na nossa área, gosto como ele promove os trabalhos.

7 – Como é que estamos de concertos de promoção ao disco? E em relação a outro tipo de promoção, tais como entrevistas, rodagem em rádios, etc?
FJ – Embora o disco tenha saído em Novembro, apenas foi para as lojas independentes em Dezembro e só chegará ás grandes superfícies em Janeiro. Já fizemos 3 datas entre Novembro e Dezembro de promoção do disco, 2 delas com mais bandas, a primeira, de lançamento do álbum foi com os Alabama Thunder Pussy e os Firebird. Em Fevereiro e Março temos mais concertos, vamos tocar em Barroselas este ano e como não somos uma banda que toque muito ao vivo para nós já é bom. Vamos em Fevereiro gravar um vídeo-clip de promoção ao álbum, provavelmente será o tema “Predator” um tema muito “in-your-face” bom para passar na televisão. Neste mês de Janeiro sei que pelo menos uns 30 programas de rádio receberam o promo do álbum, agora é ver o que vai acontecer. As entrevistas começaram agora, penso que a tua é a primeira desta fase de promoção do álbum.

8 – O que é que aconteceu à tua editora Sleazey Records? Porque é que “fechou as portas”? Que lançamentos e outro tipo de actividades efectuaste com a mesma?
FJ – A Sleazey foi criada enquanto estava nos No-Counts para não só editar a minha própria banda, bem como as dos nossos amigos (Brainwashed by Amália e We were Wolves). A maioria dos lançamentos são splits pois assim também lançava bandas de amigos e correspondentes lá de fora. Como as bandas eram todas mais ou menos do mesmo universo, estava-se a criar uma cena gira com os Sleazey Fests e tudo, os Adam West de Washington que chegaram a tocar cá, não só entraram num split conosco em Cd, bem como lhes fiz um Ep com uma capa exclusiva assinada pelo Mauamor, o meu ilustrador Português favorito do Rock underground. Eu era um grande fan dos Adam West, eles são uma grande banda e orgulha-me ter trabalhado com eles durante o ano de 2003.Como acabei por perder algum dinheiro com a editora (alguns lançamentos falharam) e fiquei sem dinheiro para reinvestir, decidi findar o projecto.

9 – Agora tens outra editora, a Blood & Iron Records. A linha musical é um pouco diferente da Sleazey, não é? Que edições tens feito até agora e quais é que tens programadas para o futuro próximo?
FJ – Sim, eu e o Conim somos a Blood & Iron. Também distribuímos ás vezes outras editoras pequenas mas com lançamentos muito interessantes. Editámos um single para os Blacksunrise, editámos o nosso split Ep com os War Injun que era um projecto com elementos dos Earthride (2 álbums na Southern Lord), um deles o mítico Dave Sherman ex-Wretched e ex-Spirit Caravan, no baixo.Editámos um 10” EP aos Place of Skulls que contam como líder da banda, o ex-Pentagram Victor Griffin.Em Fevereiro sai agora um CD reedição com o primeiro EP dos Life Beyond mais bónus, esta banda conta com um actual membro dos Iron Man, outra banda de Doom de Maryland de culto.Também em Fevereiro sai uma colecção de demos com o single ultra-raro incluído dos Blind Legion, uma banda de culto do underground metaleiro americano dos anos 80. Em Março ou Abril sai finalmente ao fim de um ano de espera por todos os temas, o tributo aos Australianos Buffalo, com muitas bandas boas do underground Doom e Heavy Rock internacional. Os Dawnrider entram com “Shylock” que aparece também no álbum de estreia.

10 – O que é que aconteceu às tuas bandas anteriores, The No-Counts D.O.M., Subcaos e Savage City Outlaws (esta apenas uma pequena brincadeira)?
FJ – Os No-Counts acabaram, pena foi não termos deixado um álbum. Agora vejo aí bandas com metade da qualidade e da fúria dos No-Counts a quererem singrar cá. A minha mensagem é: “os Portugueses não gostam de Hard Rock com colhões!” - S.C.O. são isso mesmo, uma brincadeira. Fui convidado para cantar nos eps nada mais, foi uma boa gargalhada ver aquilo tudo editado. Subcaos…bom, vê o myspace da banda, lá diz tudo numa frase: “We the undead, we never sleep!”.

11 – Essas bandas tiveram alguns lançamentos antes de encerrarem as suas actividades. Pensas reeditar isso num futuro próximo? Talvez um CD com o material que foi lançado em vinil.
FJ – Para já não, não quero editar nada de Subcaos mas procuramos uma editora para o fazer: queremos editar finalmente a colecção de demos raras que ninguém praticamente teve acesso juntamente com o Mini LP inédito de 1996 e queremos fazer um Ep novo.Se alguma vez reeditar os No-Counts será daqui a 10 anos, ou se alguém o quiser fazer, eu não me importo.

12 – Além de bandas e editoras tens também andado ocupado com a tua loja de música. Isso ainda está a andar?
FJ – Fechou há um ano atrás, o negócio na net e a edição de discos são agora o meu objectivo.

13 – Sentes na tua loja que o negócio está fraco por causa de toda a cena do “download” na “internet”, pirataria, gravações caseiras, etc? Já agora o que é que pensas desse assunto? Não será isso apenas mais uma forma actualizada do antigo “tape trading”? Afinal de contas, sempre se gravaram os vinis dos amigos lá em casa, nas velhinhas cassetes.
FJ –
A minha opinião é que realmente fazer um download é como gravar uma cassete ou ainda pior pois o som não é tão bom. Não há nada como o som da fita e do vinil. Mas há bons trabalhos hoje em dia de remasterização que aprecio, não tanto em música dos anos 70 que perde a sujidade e fica despersonalizado, mas no Metal, tenho visto bons trabalhos de remasterização e remistura.O como alguém pode achar que ter um cd-r com uma capa de fotocopia ou gigas no computador substitui o objecto é que eu não compreendo. Esta gente que se diz apoiante do underground, está-se a contradizer. Cada um tem as suas prioridades na vida, eu tenho a casa cheia de música, revistas, zines, memorabilia…o mundo do Rock pesado e underground vive disto, virtualizar as coisas é matar a nossa cultura. Já basta uma pessoa trabalhar em frente a um computador!

14 – Tens já alguns anitos no Underground nacional. Já estiveste envolvido em diversas bandas como Subcaos, Crise Total, No-Counts D.O.M., Dawnrider, etc, já formaste editoras independentes (Sleazey e Blood & Iron), tens uma loja de música, etc. Como vês a evolução da cena Underground nacional desde que começaste a fazer parte da mesma até hoje? Que bandas, editoras, promotores de concertos, revistas e outros da cena musical podes realçar?
FJ – Agora as coisas são mais facilitadas, mais fúteis por vezes, anda tudo muito virtual. Eu também vivo muito na net devido ao meu trabalho, mas quero a rua como campo de batalha e os concertos como manifesto. Quero a minha cerveja gelada, e relações cara-a-cara. Queria ter mais contacto com a natureza como já tive para assim conseguir mais facilmente paz de espírito e alienar-me das coisas más da selva de pedra. A minha menção honrosa vai para todos aqueles que organizam concertos, esses são uns verdadeiros heróis, musica ao vivo é vital e eu sei que dá trabalho e por vezes perde-se dinheiro. Desde o pessoal de Barroselas até aos punks de 20 anitos que organizam concertos para 40 pessoas, passando pela Spear, para mim todos contribuem de maneira positiva para o underground nacional. Não sair de casa e ficar na Internet armado em palhaço num fórum qualquer é uma atitude merdosa de cobarde que nada tem a ver com Rock & Roll! A acção é na rua! Devo também salientar o trabalho da Underworld, já são muitos anos a fazer um magazine grátis que não lambe o cú a ninguém, pena ter poucas páginas pois é aquela postura no jornalismo musical que faz falta em Portugal.

15 – Tens agora espaço para deixar uma última mensagem aos leitores da Fénix.
FJ – Obrigado pelo interesse nos Dawnrider. Apoiem o underground e pensem por vós próprios. Não se deixem enganar pelas mentiras de um sistema cada vez mais corrupto e do seu plano maléfico para nos controlar e rotular. Fuck the 666!

Questões: RDS
Respostas: Francisco Dias


Dawnrider: http://www.dawnrider.com/ / http://www.myspace.com/dawnriderdoom
Raging Planet: http://www.ragingplanet.web.pt/ / http://www.myspace.com/ragingplanetrecordsportugal

No comments: